AFRO CONGO BEAT

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Brasil | Worldbeat | 2015

'Quintal (Afro Congo Beat' | Diálogo Musical entre o Tradicional e o Moderno

Fabio Carvalho busca as heranças mais antigas dos ritmos regionais do Espírito Santo - as músicas de matriz africana - e coloca as batidas do congo e do ticumbi para conversar com os beats da música eletrônica. O resultado é um diálogo precioso e dançante da arte popular tradicional com a contemporânea, fruto atualíssimo da antropofagia cultural que marcou o nascimento do modernismo brasileiro.

Essa profunda ligação com a cultura popular transparece em 'Quintal' desde sua faixa de abertura, “Preto Velho”, em que o músico reverencia o candomblé e ritmos como a roda de samba, o caxambu, a ciranda e os já citados Congo e Ticumbi. O elo surge sob diferentes facetas, como na delicada “Rainha”, quase uma canção de ninar, e no Bois de Reis de “Kalimbada”, até desaguar em “Boi Carrero”. Nesta, a sanfona - tão presente na vocação forrozeira do Espírito Santo - miscigena-se ao jongo e às músicas árabe e celta, representadas pelos derbukas e violinos eletrônicos.

 

Em seu excelente Album de estréia solo, em que brinda o ouvinte não apenas com composições inspiradas, mas também com seu timbre encorpado e macio (o que pode ser uma descoberta para muitos, já que ele não costumava assumir os microfones), Fabio não economizou nas parcerias. A primeira faixa já inaugura também a lista de ilustres participações, com a tradição do tambor mineiro de Raquel Coutinho e o groove hipnótico do celebrado percussionista Marcos Suzano, que se reveza entre o pandeiro, as tablas, o karkabul e outros instrumentos.

 

Nome incontornável do samba no Espírito Santo, Edson Papo Furado surge em “Barracão” não apenas como intérprete, mas como compositor, na primeira gravação de uma música de sua lavra. Mestre das baquetas e da percussão,
Edu Szajnbrum, que já gravou com artistas de relevo no cenário nacional, entre eles Marisa Monte e Gilberto Gil, é quase onipresente no disco, responsável por fazer pulsar diferentes instrumentos percussivos.

 

Clássico do cancioneiro recente capixaba, a canção “Jardim Camburi”, da banda Zémaria, reaparece em “Quintal” em versão lounge, com o auxílio luxuoso de Rafael Rocha, um dos trombonistas mais festejados do país.

 

Janaína”, composta em parceria com o ator e músico Jonathan Silva, radicado em São Paulo, traz pios de pássaro e repinique tocados por Cid Travaglia, já acostumado às fusões entre a música afra e o eletrônico com a banda NAPALMA. Cid volta ainda em “Solte os Cabelos”, desta vez com um djembê.

 

A lista de convidados é coroada com os artistas que representam o congo, uma das bases do tripé que sustenta o Afro Congo Beat do álbum. O ritmo marca sua presença tanto na ambientação e nos samples ao longo das faixas - gravadas in loco na Festa de São Sebastião e São Benedito na Vila de Itaúnas, em Conceição da Barra (ES) -, quanto na participação de Mestre Vitalino, Dona Juraci e Beatriz Rego, da Banda de Congo Mestre Honório, da Barra do Jucu, em Vila Velha, celeiro fértil dessa manifestação popular. Além disso, todos os tambores e casacas foram gravados por jovens do projeto Congo na Escola e do Grupo Manguerê, ligados ao Centro Cultural Caieiras, presidido por Fabio Carvalho.

 

É interessante observar aqui o trabalho de harmonização do músico, que deu estofo à melodia e ao ritmo característicos do Congo. Esse processo fica evidente, entre outras faixas, em “Tem Areia” e “Solte os Cabelos”, que ganharam corpo com as batidas eletrônicas.

A perfeita alquimia de “Quintal” pôde ser obtida é, claro, graças ao talento de Fabio Carvalho para agregar e miscigenar artes e conceitos, mas também à arquitetura musical do maestro e arranjador Léo Caetano, em parceria com o músico e produtor  Marcel Dadalto (Zémaria - She Knows), nome por trás das batidas e samples do disco.